
A linguagem expõe, de forma clara, a maneira como compreendemos o mundo. As palavras não apenas refletem o mundo que habitamos, mas também a forma como o habitamos. Tal como «expor», o verbo «habitar» tem uma raiz protoindo-europeia: *ghabh.
Não existe consenso absoluto, mas a hipótese predominante é de que as línguas indo-europeias teriam tido origem no que hoje é o Leste da Ucrânia. Foi aí que, há cerca de sete mil anos, se poderá ter pronunciado a palavra *ghabh, ou algo próximo disso — um termo cujo significado triplo pode, à primeira vista, parecer paradoxal: «segurar, dar, receber». No entanto, qualquer contradição se dissipa quando dar e receber não são entendidos como trocas unidirecionais, de soma zero, mas como atos recíprocos que podem assumir múltiplas formas.
A ideia subjacente ao Anozero’26 não foi a de procurar um tema externo, mas permitir que este emergisse da própria exposição, e tendo em conta a forte componente arquitetónica desta edição, refletir no que significa estar no mundo enquanto ato de o habitar. A exposição é entendida como um lugar que sustém, dá e recebe; o artista, como alguém dotado de uma capacidade que se traduz em arte partilhada com quem a observa; e o habitat, como um espaço que ampara pessoas e oferece abrigo.
Segurar, dar, receber revela uma reciprocidade que ecoa tanto o conceito de ajuda mútua de Piotr Kropotkin como a visão de Lynn Margulis da simbiose como força motriz da evolução e da criatividade.
Vivemos num mundo em que as disrupções económicas são celebradas como «destruição criativa» e em que a palavra «mútuo» surge mais frequentemente associada ao espectro da destruição nuclear mútua do que à ajuda mútua. É um mundo marcado por desigualdades extremas e por uma inquietante deriva para o autoritarismo de direita. Neste sentido, Segurar, dar, receber pretende ser um gesto discreto, mas firme, de resistência — um manifesto em favor da horizontalidade, da ajuda mútua, da simbiose e da reciprocidade.
A arte e a arquitetura raramente transformam diretamente o mundo, mas fazem-no de modo indireto, ao transformar a forma como o vemos e como nele vivemos.
O Anozero’26 destaca práticas artísticas e arquitetónicas que esbatem as fronteiras entre disciplinas e apresenta projetos que — implícita ou explicitamente — dão, retribuem, transmitem adiante e permanecem recetivos às pessoas e às interpretações. Uma arte hospitaleira, uma arquitetura generosa.
Se a arte, a arquitetura, artistas e arquitetos não podem mudar o mundo — apenas a forma como o experienciamos —, então o nosso papel, enquanto curadores, é enquadrar essas visões: tornar visível aquilo que a arte e a arquitetura reunidas neste evento contêm, guardam e têm para oferecer a quem o visita e, talvez, influenciar a forma como cada pessoa compreende o mundo.
LISTA DE PARTICIPANTES:
Chantal Akerman
Christian Andersson
Jonathas de Andrade
Vasco Araújo
arquivo mangue
Lina Bo Bardi
Taysir Batniji
Frédéric Bruly Bouabré
Arno Brandlhuber e/and Constanze Haas
Inês Brites
Adam Broomberg e/and Rafael Gonzalez
Alberto Carneiro
Centrala
Rui Chafes e/and Candura
Julian Charrière
Sandro Chia
Colectivo SEM-FIM
Luisa Cunha
Eva Davidova
Thomas Demand
Forensic Architecture
Arturo Franco
Nan Goldin
Shilpa Gupta
Inside Outside
Kosmos
Juha Lilja
Mário Macilau
Fina Miralles
Adriana Molder
Office of Adrian Phiffer
Pezo von Ellrichshausen
João Salema
Taryn Simon
Charles Stankievech
Mungo Thomson
Maria Trabulo
Pedro Vaz
Carlos Ferrand Zavala
Anarchism and Planning
Three rooms