
Diz-se que o mundo se sustenta por mãos que nunca souberam que o sustinham. Um jardineiro, um oleiro a escolher uma cor sem testemunhas, um olhar que preserva em silêncio o que já morreu. Borges descreveu-os como quem faz as contas a uma casa: sem heróis, apenas gente fiel ao que tinha à frente, sem saber que o é.
Esta casa guarda oito desses gestos, infra-ordinários, os quais ocorrem sem holofote e por isso não acontecem para ninguém. São a banalidade do bem, tão involuntária quanto alheia à própria grandeza. Percorrê-los é descer uma só espiral, com a mesma pergunta disfarçada a cada momento: o que vale a pena guardar, e quem o decide sem ter deque pedir licença.
Nenhuma das obras em exposição cita as restantes. Esta surdez faz da casa uma soma que nenhuma parte, isolada, poderia fazer — e que pertence inteiramente a quem a visita. Só esse alguém sai a saber o que nenhuma delas, por si, saberia: que estiveram todas, sem se conhecerem, no mesmo lugar.
Num mundo que é um incêndio inextinguível, haverá sempre, a meio do fogo, uma mão que as chamas não vencem. Esse é o gesto cuja geografia vale a pena fixar. Não apagar o incêndio, antes abrir nele uma fenda por onde a terra continue a ser terra, a mesa continue a ser mesa, e a mão continue, contra tudo o resto, a enterrar uma semente. Um pequeno perímetro de frescura, dentro do inferno, que alguém, ingenuamente, insiste em regar. A prova de que o mundo se aguenta em pé sobre alicerces mínimos, e de que ninguém, nunca, precisou de saber o peso que estava a segurar.